Mães amigas e seus bem nascidos

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Assim como o pimentão, pepino e tomate, o morango lidera o ranking dos alimentos contaminados por agrotóxico.
Quando eu comprava no sacolão, deixava eles de molho em uma solução de água e bicarbonato de sódio por meia hora, mesmo assim não me dava por satisfeita e ainda passava uma esponja.
Desde que as meninas nasceram, a vontade de morar numa casa com quintal só cresce, morro de vontade de plantar temperos naturais e algumas frutas.
Como Rayssa adora morangos (come uns 10 de uma vez se deixar) e curte também ele batido com iogurte natural caseiro e a bandeja mais barata que encontro custa R$ 3,00, resolvi por a mão na massa e plantar nossa própria hortinha. Outro dia plantamos guaco e ele está crescendo firme e forte na janela.
Daí que Rannah sempre vê a irmã se esbaldando com morangos e fica em cima dela tentando pegá-los, então mais um motivo para plantar nossos próprios morangos. É muito agrotóxico para um ser tão pequerrucho!
Fui com a cara e coragem comprar as mudas encarando o busão com as duas(já que o marido está viajando).
Mas valeu o esforço quando vi o entusiasmo da maior em plantar as mudinhas.
Aí vai o vídeo que gravei, e a foto acima é das mudinhas já regadas.

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É super natural criarmos expectativas sobre como vai ser o nosso filho (a), como será a personalidade dele, se ira ser comilão, magro, alto e por ai vai…
Ai o bebe chega, vai crescendo e tomando forma de gente rs.
Um dia antes da primeira papinha, após 6 meses de dedicação total a amamentação exclusiva, você vai ao supermercado e convence o marido a comprar orgânicos. No dia seguinte você acorda toda animada e disposta e faz um delicioso almoço pro bebe. Você oferece a primeira colher e ele poe pra fora, a segunda ele vira a cabeça, e assim permane por meses. Como assim, onde estou errando? Os filhos das minhas amigas são tão comilões, tem algo errado com meu filho, não pode ser. Ai já ‘e tarde demais, você já caiu na armadilha da comparação, e o bebe ‘e sempre o vilão da situação.
A minha filha mais velha, Rayssa, começou a andar super cedo (9 meses) e por mais que eu ache lindo e de vez em quando coloque o DVD pra rever o momento dos primeiros passinhos, confesso que na hora não foi tão emocionante, foi algo muito natural. E sabe por quê? Porque não tive tempo de criar expectativas, de sonhar com o primeiro passo, então posso ate dizer que foi algo sem graça.
Como decidi ficar com minha filha em casa ate ela completar 2 anos e só depois coloca-la numa escola, uma coisa sempre me preocupou: a socialização, e se ela ficar muito grudada em mim? E se ela não souber se relacionar com outras crianças? E se ela se tornar uma criança tímida?(assim como eu sou).
Nós sempre desejamos que nossos filhos não tenham nenhum dos nossos defeitos, que herdem somente as qualidades, que eles sejam simpáticos, sorridentes, educados, sempre bem humorados e etc.
Mas como falei acima, eles crescem e desenvolvem suas próprias personalidades e surge um defeito aqui outro ali e nos perguntamos: onde foi que eu errei? Como se eles viessem para nós como uma folha em branco e nós pais fôssemos os únicos responsáveis por tudo que esta escrito agora, precisamos ser menos presunçosos, humildes pra aceitar que eles tem seu próprio jeito de lidar com cada situação.
A semana passada fui à casa de uma amiga e os filhos delas estavam todos juntos brincando na varanda (na verdade eles brigavam bastante, se batiam rs) e Rayssa preferiu brincar sozinha em outro cômodo, ao ver aquela cena, um sentimento de decepção veio com força e me senti triste por ela não desejar brincar com outras crianças, e fiz a pergunta bem alto no meio DAZAMIGAS: Porque minha filha prefere brincar sozinha isolada do que esta em convívio com outras crianças? Onde eu errei? Lembrei que desde que ela tinha 7 meses eu saia com ela todas as tardes pra dar uma volta no quarteirão, antes no sling, depois num carrinho.
Sempre fiz questão que ela tivesse contato com outras crianças, sempre levava ela num campinho que tem perto de nossa casa, e ficava lá esperando ela correr de um lado pro outro, pegando em plantas, mas isso nunca acontecia, eu me sentia muito decepcionada porque simplesmente ela não alcançava a minha expectativa, eu me esforçava pra ser uma boa mãe, mas o resultado (no meu ver) era pouco e demorado.
Voltando ao meu questionamento na casa da amiga, na mesma hora respondi a mim mesmo com outra pergunta: Porque eu quero que ela seja uma pessoa que ela não é? Porque ela tem que suprir minha expectativa? O problema não esta nela, somente em mim. Ela só esta sendo ela mesma e não ha nada errado com isso.
Depois refletindo, percebi que tinha sido dura, que com os amiguinhos daqui de perto de casa ela tem prazer em brincar, e acho que ele só se afastou desses amiguinhos neste dia porque eles estavam bem violentos.
E que eu preciso aceitar que minha pequena ‘e uma criança sensível ao ambiente. Lembro que no final do dia ela já exausta me puxou pela Mao ate a porta e disse: casa, mamãe, casa!
Como se dissesse chega! cansei! Já te acompanhei até aqui esse dia inteiro agora chega, não aguento mais, quero o meu lar, meu aconchego.
Como foi duro enxergar que eu tinha desrespeitado minha filha. Conhecendo-a como eu conheço deveria ter tomado esta atitude antes dela me pedir. E tudo isso em nome de meu esforço em socializa-la.
Desde antes de engravidar eu sonhava em ser mãe de menino, motivo: eles são bem mais sapecas e por consequência disso, mais interessantes. Eu sonhava com minha casa de pernas pro ar. E Deus me deu duas meninas.Como meus conhecidos comentam ela é uma Lady, calma, tranquila. E que eu devo levantar as mãos e agradecer a Deus por isso, e nunca, jamais reclamar.
O que eu queria deixar de reflexão para todos nós (e eu me incluo nisso) ‘e que deixemos nossos filhos ser quem são,livres de qualquer estereotipo, de qualquer comparação.
Que o abracemos todas as manhas e digamos: Eu te aceito assim como você é, você é único, e quero te ajudar a transpor seus próprios limites. Que nos nos desprendamos de toda e qualquer expectativa, não importa com quantos anos e meses eles começarão a andar, ou se interessar por comida, engatinhar, ou se tornar sociáveis.
Nada disso importa, o que ‘e importante ‘e os deixarmos trilharem seus próprios caminhos, adquirirem sua própria personalidade.
Precisamos apenas desejar que eles sejam felizes.

Quando estava grávida não atribui muita importância a dor.

Considerava a dor como uma vivência natural e que era superestimada pelos médicos e mães em geral.

De fato a dor, em diversos relatos se afigura como algo marcante para a mãe.

Mas minha visão sobre a dor era simples: ela existe desde sempre e se eu tenho ovários, útero e vagina então sentirei dores de contração para parir, logo tenho total capacidade de aguentar a dor.

Fiquei oito meses tentando entender porque eu não sentia que meu parto foi uma vivência de emancipação mental e mística.

Sempre reflito sobre os acontecimentos daquele dia. Sobre  o que considerei como aspectos positivos e negativos. Sobre a culpa e  frustação.  E sobre os sentimentos apaziguadores, de calma e confiança.

Algo permanecia imcompreendido. E mesmo querendo fugir era possivelmente isso que me fazia voltar aquele dia para analisar meus sentimentos: A Dor. Mas muito mais do que a dor isolada, física o que incomodava era minha relação com ela naquele dia.

Sempre ao pensar na dor tentava entender porque senti  ela mais intensa no ínicio do tp e não no final.

Porque era preciso viver a dor e qual a marca que ela deixou em mim.

Estamos acostumados a atribuir aspectos morais e espirituais à sensações que não possuímos uma certeza absoluta sobre a razão de ser. Sobre nossa existência, sobre a existência da vida, sobre nossos sentimentos.

E é o que também fazemos em relação a dor do parto.

A causa física é óbvia, as contrações uterinas, intensas provocam a dilatação do colo e receptores de dor ligados a musculatura são ativados.

O sentido e significado nós escolhemos e associamos a dor.

É cultural e também pessoal.

Eu encarava como um ato simbólico de amor, de entrega, um sacrifício que fazia parte daquele ritual. Eu subestima a dor. Não achava que não ia doer, achava que por mais que doesse não seria o suficiente para me fazer ajoelhar.

Agora entendo que de nada adianta antes de vivenciar um trabalho de parto temer ou subestimar a dor. É algo que temos de estar cara a cara para descontruir.

E foi isso que se deu.

E por isso digo, apesar de no dia P ter afirmado o contrário, que meu parto não foi sofrido.

No ínicio a maneira como vivi a dor me dava ânimo, forças e alegria.

Quando acabava uma contração eu pedia logo por mais uma. E assim foi até eu começar a perceber que ia demorar muito mais do que eu imaginava.

A dor não era o problema, ela estava me ajudando me guiando, mostrando os movimentos que eu tinha de fazer para ajudar a posicionar minha filha para o nascimento e ajudar na dilatação.

Mas quando o tempo avançava e a dilatação não acompanhava( eu não sabia a diferença entre trabalho de parto latente e ativo, então minha expectativa era de que diatação ocorresse numa taxa linear) uma angústia tomou conta de mim. Um pavor do desconhecido de não estar no controle, de não estar ocorrendo conforme o planejado. E uma frustação por não ter parido depois de oito ou doze horas de trabalho de parto. Aos poucos de desejo e gratidão minha relação com a dor se tornou de discórdia. De repúdio. Encarei a dor como inútil e torturante. O bode expiatório perfeito para culpar pela insegurança e frustação.

Hoje enxergo claramente que sua intensidade não sofreu alterações durante o tp. A ótica a qual eu submeti a dor é que mudou.

Por isso não conseguia encarar meus videos de tp. Porque não queria encarar essa verdade que me assombrava sempre quando o assunto era a dor do parto.

Os gemidos, gritos e choros eram meu sentimentos em relação a mim se desdobrando.

Estava com raiva e vergonha porque entrei cantando vitória e depois de várias horas em tp sem nem sinal de período  de transição e de escutar vários bebes nascendo (de mulheres que se internaram depois de mim), de ver o ponteiro do relógio girando, e de saber que minha família, a assitência, a doula e meu marido estavam presenciando tudo aquilo me senti envergonhada por ter feito pouco caso da dor e de ter achado que tudo ia ser “moleza”.

Do canto que eu entoava durante as contrações fui  ao grito desesperado, de raiva.

Da plenitude á loucura.

E em nada o padrão fisiológico da dor havia mudado. As sensações continuavam as mesmas.

Depois veio o pavor do desconhecido, do “fora dos padrões”, de estar despreparada para as próximas contrações e para empurrar minha filha para fora. Em seguida pedi analgesia e cesárea, ao meu marido. Até pensei que isso era apenas uma questão de tempo.

Esse pavor me fazia querer fugir daquele enigma que se afigurou para mim naquele momento, me expurgando da viviência e da responsabilidade de ser protagonista.

Eu só queria ir para uma dimensão paralela e tomar coragem para continuar.

Por isso dizia tanto que queria dormir. Não era cansaço físico.

Antes do tp eu achava que ser empoderada era mais sobre ser ossos e músculos, rugir ao invés de miar. E eu não me sentia parecida em nada com aquela mulher.

Cercada de pessoas cientes do meu protagonismo e dos meus desejos, tive a oportunidade de reformular aquela desordem instalada e pude ir além do pouco caso que fiz da minha força e da serventia da dor. Se estivesse sendo acompanhada por profissionais e por um companheiro que não tão cientes dos eventos envolvidos num trabalho de parto poderia ter passado por intervenções desnecessarias e até mesmo cirurgica, como ocorre com muitas mulheres.

Como estava tudo naturalmente normal, eles não deveriam intervir. Eu tinha que me resolver.

Entendendo meu processo vejo que ser poderosa não implica exclusivamente em sorrir durante as contrações, não gritar, não pedir analgesia ou até cesárea e ficar tranquila o tempo todo.

Antes de músculos e ossos, parto deve ser feito com coração.

Saber  dialogar com a dor essa era a chave para continuar.

Se olhamos para ela como se ela fosse um gigante abismo intransponível, ela se tornará isso. Se olhamos para ela como um campo minado assim ela será. Se a atravessamos como um campo aberto com sol forte ou como um lago calmo e refrescante ela assim o será. A maneira como escolhemos ver  como atravessámos o caminho é que conta.

Ser poderosa não era sentir dor como se não estivesse acontecendo nada.

Ser poderosa  era expor meus sentimentos e pedir ajuda. Não por piedade mas por amor. Um carinho, uma mão para apoiar, uma presença. E eu tive tudo isso. E foi um balsámo

E naquele momento eu precisava me resignar, ser humilde e agradecer por uma experiência tão maravilhosa e marcante.

E então a dor se foi, junto com a tensão e o negativismo.

Quando acalmei meu coração pude deixar vir as virtudes que hoje como mãe são tão necessárias e requeridas: paciência, dedicação, perseverança, instinto e confiança.

A partir daí só restaram o som da respiração e os susurros da minha prórpia voz que ecoavam na minha mente.  As contraçoes intensificaram , assumi a postura que no momento era a mais confortável, de quatro apoios segurando na barra da cabeceira da cama. As contrações puxavam meu corpo para baixo e irradiavam até as costas. Havia a sensação de grande pressão e movimento involuntario, mas dor não.

Quando começou o expulsivo, senti uma pequena ponta de ansiedade, pois  sinceramente minha expectativa era de continuar muito mais tempo em trabalho de parto.

As contraçòès eram tão fortes que nenhuma força adicional, comandada, faria diferença. Posição vertical. Ninguém estava me segurando, eu queria me concentrar. Não havia dor.

A cada contração ela descia mais, quando senti o círculo de fogo, meu coração bateu forte e senti uma vontade intensa de gritar, incontida, indomável. Senti a flor da pele uma emoção intensa, uma energia que se esvaiu no grito. Como o grito na descida de um montanha russa.  Não houve dor, apenas o ardor.

Um deleite na verdade.

Em mais uma contração nasceu a cabeça, senti o corpo girar, os ombros desprenderem, o abdomen passando e as pernas batendo dentro de mim passando pelo canal e finalmente os pézinhos. Com ela do lado de fora fui tomada pela abundante senção de prazer, alívio, sensação de dever cumprido, uma embriaguez fascinante. O coquetel de hormônios, o toque da pele dela na minha a visão de seu rostinho, nitida até hoje, os olhos penetrantes, meu corpo pulsando.

E tudo isso só foi possível , porque antes eu experimentei a dor. O preparo para esse momento, são as contrações e ainda os momentos transformadores. Toda essa enxorrada de ocitocina e endorfinas, todo esse prazer só pode exitir se vivenciarmos a “dor”.

A saída da placenta foi natural em uma grande contração. Eu já estava deliciada com tudo o que estava sentido naquele momento e a passagem da placenta( talvez no pico de oxitocina)intensificou a sensação de prazer físico e sexual.

Só depois de se transformar, se perder e reencontrar, mais focada, madura e  confiante e que eu estava pronta para o nascimento dela.

E é por isso que nós levamos nossos relatos a outras mulheres e incentivamos essa vivência que é o parto.

Não é sacrifício nem sofrimento. Essa visão torna nebulosa a experiência fantástica que está diante de nós. Ela nos vitmiza, nos faz esperar pelo horror , então nos dizemos que dói por pena de nós mesmas.

A dor estará lá, e possivelmente a fará se sentir pequena, impotente diante de um fenômeno que parece não caber dentro de nós. De por a prova a resistência dos nossos musculos e ossos, Espere por isso, sem medo nem descaso. Apenas espere.

Ser mulher e poder viver o processo do parto por completo não é sacrifício, não é um castigo divino, tão pouco martirização. Ë um privilégio.

História da Gravidez:

Em Maio de 2010, quando a menstruação veio tive uma sensação estranha, passou pela minha cabeça o pensamento de que eu engravidaria naquele mês, não como uma afirmação que eu tentaria engravidar, mas como um presságio.

Quando a menstruação atrasou, no primeiro dia sabia que estava grávida. Fiz dois testes de farmácia e um exame de laboratório para confirmar e ainda estava meio confusa com aquilo, mas muito feliz também! Minha maneira de encarar a vida mudou completamente! De repente depois de muito tempo em crise existencial, respirei fundo e comecei a saborear a vida! Sentia-me feliz e saudável, com uma vitalidade sem igual.

Logo que descobri que estava grávida pensei no pré-natal, marquei uma consulta com uma GO, de quem não gostei pela frieza que me tratou. Tentei fazer pelo SUS, mas tinha a ideia de que “SUS não presta”. Por isso acabei fazendo um plano de saúde, afinal se era para o bem do meu bebê eu teria que pagar. Minha barriga começou a aparecer com três meses e aí caiu a ficha!

O bebe ia crescer e um dia sairia!

Comecei a assistir vídeos de parto, a maioria hospitalar intervencionista e os poucos partos naturais que vi não eram humanizados. Fiquei com pânico de episiotomia, pois achei horrível a cena da vulva de uma mulher ser cortada enquanto o bebe nascia.

Assisti vídeos de cesáreas e fiquei com mais pânico ainda, as sete camadas de tecido sendo cortadas como se fosse algo inerte e a cabeça da criança retirada de dentro da mãe. Tudo muito frio, meio açougue, me fez lembrar o livro “Admirável Mundo Novo”, sem sentimentos. Mãe e filho separados radicalmente tanto pela rapidez da transição do útero para o mundo externo quando pelos procedimentos de rotina adotados com o recém-nascido. Nesse momento soube que não queria aquilo para mim e para meu bebe de jeito nenhum e eu teria a gravidez mais saudável o possível para evitar isso, achando que somente isso bastaria para não “precisar” de uma.

Enfim, estava convicta que seria parto normal e sabia que isso era o que a natureza havia programado. Que minha mãe e irmã tiveram partos normais e eu também teria.

Na primeira consulta com a GO que me acompanhou, ela pergunta: “E ai você já decidiu se vai ser parto normal ou cesárea?” E eu pensei “Isso é pergunta que se faça? Como assim alguém me pergunta se eu quero cesárea? Quem pode escolher isso? Não é uma cirurgia para o último caso?”.

Respondi: “Normal!”

E ela com cara de quem duvida me disse: “Você é guerreira Jedi! Tem mulheres que não suportam tanta dor!”.

Fiquei meio desconfiada.

Continuei com ela no pré-natal porque era “o arroz e feijão”, mas sem ela saber comecei a procurar sobre parto na internet.

Enquanto isso minha gestação estava maravilhosa, eu cada vez me sentido mais forte e viva, feliz, meio radiante mesmo, como dizem que a mulher fica. Estava num estado divino. Fazia caminhada todos os dias, pensando no meu bebe em como ele seria, conversando mentalmente com ele, enfim me conectando com a Miyuki. Entreguei-me totalmente a ela. Passei toda a gestação me concentrando nela, no seu desenvolvimento e no seu nascimento.

Adotei uma dieta saudável me sentia motivada para viver de maneira plena! Uma mudança radical de mentalidade e de espiritualidade.

Já tinha decidido que a maternidade seria o Sofia Feldman, pois minha irmã teve seu parto lá. Houve certo terrorismo, me disseram para pensar bem, que era a vida do meu bebe, que eles obrigavam a mulher a ter parto natural e que isso punha em risco a vida do bebe, porque eles esperavam além do limite para fazer uma intervenção e me aconselharam dizendo que o melhor era procurar uma maternidade particular.

Minha amiga Clara que também estava grávida na época me disse que teria seu bebe no Sofia, e então me indicou grupos de parto humanizado, dei uma lida, mas ainda não estava convencida, de que precisava planejar meu parto, de doula, e que tudo isso de obstetras cesaristas (mal formados/ informados que conduzem a mulher para cesáreas desnecessárias por comodidade, por falta de treinamento em acompanhar um parto fisiológico e natural e por puro pragmatismo cultural e dogmático de uma medicina obsoleta e alheia às evidências científicas) e violência no parto parecia teoria da conspiração demais para mim.

Sabia que o Sofia era um lugar bom e que não precisava de um hospital caro para ter meu bebe. Achava que parir era simples. E deveria ser. Hoje acompanhando histórias diversas de parto entendo como é difícil se livrar de todos os percalços que esse sistema cesarista, focado no médico e preconceituoso que castram muitas mulheres com o desejo de parir e alimentam o medo daquelas que temem passar por um parto vaginal.

Até então, nem sabia sobre humanização do nascimento e do parto, eu o interpretava como algo que o médico fosse realizar. Não sabia que era algo meu, da minha sexualidade e natureza. Quem faz o parto é a mulher e eu como muitas se não toda mulher que engravida pela primeira vez, pensava que era um evento médico.

Fui à feira Gestante & Bêbe, com 21 semanas, e participei da roda do movimento BH pelo Parto Normal, e ouvi relatos bacanas sobre parto de cócoras e natural.

Cheguei em casa e comecei a procurar com as palavras-chave corretas: humanização e parto.

Mergulhei num mundo novo, li vários artigos e de repente foi como se um véu fosse arrancado de mim.

Comecei a frequentar encontros, foram essenciais para mim para eu me cercar das energias boas, dos relatos maravilhosos e de boas referências sobre o Sofia.

Logo depois comecei a participar da lista virtual de discussões, e me aprofundei mais ainda, baixei músicas de relaxamento, comecei a praticar algumas posições de Yoga para me preparar para parir de cócoras e desejando um parto natural, comecei a construir meu parto. Perdi o medo da cesárea e fui atrás de um sonho. O motivo pelo qual eu desejava o parto não eram mais o medo e sim algo que tocou meu coração de uma maneira linda e profunda. Desejava uma experiência de entrega e de amor pela minha filha. Tê-la em meu colo logo após o nascimento e olhar nos olhos dela.

Fui conhecer o Sofia, e quando sai de lá com ótimas impressões até mesmo da energia daquele lugar tinha decretado o Veredicto: ”Vai ser na Casa de Parto, e mesmo se for na maternidade, eu quero que seja aqui, pois ninguém vai afastar minha filha de mim”!

Comecei a questionar a presença da minha família no dia do parto e queria parar de ir na GO. Ela desconversa demais quando eu questionava alguma coisa, e depois que disse que ela não acompanharia meu parto cumpriu apenas o protocolo de praxe.

Eu queria me cercar de pessoas com pensamentos positivos sobre minha gravidez, sem medo e nada que abalasse minha confiança.

Não sentia medo da dor que pudesse sentir, ou do parto em si.

Não pensava nisso. Eu só desejava o parto.

Considerei a possibilidade de ter uma doula, e a cada vez que eu pensava no parto achava que era o mais sensato a se fazer. Alguém que acreditasse na mulher, no parto, fosse paciente, se dedicasse aquele momento e soubesse. por mais caótico que fosse, aquilo era normal e belo. Que pudesse segurar minha mão na hora da contração, mas mais importante que pudesse me ajudar e me acalmar quando a angústia e ansiedade ameaçassem me atrapalhar. Pedi socorro na lista, e o anjo Carol apareceu.

Quando completei 32 semanas fui fazer um US Perfil Biofísico fetal como minha GO tinha pedido, “só para ver se ela estava crescendo direitinho” tranquila sabendo que tudo estava ótimo, mesmo sabendo que US demais podem deixar as gestantes ansiosas. Fui, em parte porque queria saber como meu bebe estava crescendo, queria vê-la. Saí de lá arrasada, pois mesmo com perfil 8/8, líquido amniótico à vontade Miyuki estava sentada, o que era normal naquela Idade gestacional, mas eu fiquei com medo de ela não virar, de ir na GO, ela me encher a cabeça com medos, tragédia com bebes pélvicos e cesáreas marcadas etc.. Fiz exercícios indicados para essa condição e passei a conversar com ela, a pedir que virasse, escrevi um carta para expressar melhor meus sentimentos em relação a ela e ao parto, dizendo para ela não ter medo de vir, que ela podia virar, mas que se ela não virasse, que estava tudo bem, eu ia ajudar e que se mesmo assim não virasse que eu respeitaria a decisão dela e tentaria até ter um parto pélvico, e que não me importava de ser uma cesárea, pois eu garantiria a ela que ela não se afastaria de mim. Eu a amava de qualquer jeito.

Miyuki ficou dando voltinhas durante duas semanas. Nesse meio tempo pedia a Deus que me ajudasse a ter sabedoria para enfrentar esse momento, que eu tentaria esquecer essa neura e viver o resto da gravidez como estava vivendo, plena, feliz e cheia de vitalidade. Sentindo o estado mais divino que já senti.

Então tive um sonho lindo que me marcou profundamente. No sonho eu olhava para minha barriga e via minha filha sentadinha com a cabeça debaixo da minha costela direita. Emocionava-me e sentia um amor inexplicável, tamanha era a minha alegria de poder vê-la, tomava uma de suas mãos nas minhas e a beijava. Ela me retribuía os beijos. Eu pensava: “como é linda!” nem me importava com ela ser pélvica, e então ela cuspia uma gosma e de repente dava um cambalhota virando a cabeça para baixo na posição anterior e eu ajudava com minhas mãos a encaixá-la. Meu marido chegava e eu exclamava: “Ela virou, virou!”

Depois disso fiquei mais tranquila.

Chegou o fim de ano, meu marido foi para SP, para ficar com o pai, e eu fui para casa dos meus pais onde ficaria até o nascimento da Miyuki.

No natal a Miyuki virou a última vez, e eu sabia quando ela virava por que ela esticava minha barriga de lado a lado e doía um pouco. E eu que tinha apreendido a verificar a posição dela por apalpação, não consegui mais senti a cabeça dela na parte de cima. Depois não senti virar mais

Depois do natal tinha consulta na GO por providência divina eu acho, caiu o maior tóro, e eu não consegui sair de casa para ir a consulta. A médica viajou e eu fiquei sem Pré-natal.

Novamente pedi socorro na lista, minha melhor alternativa era aguardar o termo da gestação e ir no Sofia. Então quem aparece oferecendo me atender no Sofia? Sibylle, uma enfermeira obstetra de origem alemã, quem eu já conhecia de nome pelos diversos relatos que li. Combinamos de ir no dia de plantão dela, conversamos muito, ela foi ótima, e no exame verificamos que Miyuki estava cefálica!

Dei graças a Deus, senti um grande alívio e pensei: “agora é me concentrar no finalzinho e esperar ela chegar”. Contavam 35 semanas de gestação. Com 37 semanas fiz outra consulta com a Sibylle, ela me disse que a Miyuki não era grande e ficou aguardando para pedir um US para ver se tava tudo Ok.

Fiquei meio preocupada mas dessa vez afirmei que estava tudo bem. Não deixaria nada me abalar. Fechei os olhos e pensei ”Vou ficar tranquila, porque eu sinto que está tudo bem”.

Já estava meio ansiosa com o fim da gravidez, me preparando para o grande momento, tentando relaxar, escutando todas as músicas new age que existem, mentalizando meu parto e minha filha, Meu marido já estava de volta e fazendo de tudo para voltar mais cedo do trabalho para ficar comigo. Acho que comecei a sentir a “síndrome de preparação do ninho”, querendo arrumar tudo, me estressando com um copo fora do lugar, com poeira e chão sujo, enfim, tava uma chata com arrumação. Para completar as pessoas começam a ligar e perguntar se já nasceu, vai nascer quando etc., enchendo agente de medo, contando caso de fulano e de ciclano etc.

Então no meio daquela semana tive uma briga com minha mãe que foi a gota d’água para me deixar nervosa.

Naquele dia não senti a Miyuki mexer, fiquei apavorada e fui para o Sofia, liguei para Carol, que estava viajando, não poderia ir comigo, mas meu marido foi e ficou lá. Ele ligou para a Sibylle, que foi para lá. Não era nem dia de ela estar lá! Mas ela tão humana, tão carinhosa foi e ficou comigo, enquanto eu fazia o Cardiotocografo. O CTG não acusou nada de grave, mas não registrou contrações. Eu tinha apenas de as Braxton Hicks, bem levinhas só endurecendo a barriga e umas cólicas também tipo menstrual.

Ela pediu um US, insistiu para eu fazer, realmente ela estava bem preocupada. Acabei fazendo o US, e estava tudo perfeito perfil biofísico 8/8, cefálica, anterior, e peso aproximado 3100g e 50 cm.

Com 38 semanas na consulta com a Sibylle ela não fez toque, mas eu disse que já tinha tentado ver como estava o colo, e disse que ainda sentia ele mais amolecido. mas apontado e fechado. Ou seja sem dilatação. Pensamos que ia demorar mais umas três semanas e ela deixou a entender a possibilidade de indução com 41 semanas. Não queria induzir o parto. Queria um parto natural na Casa de parto!

Mais uma preocupação? Poderia ter sido mas não foi. Secretamente eu pensava. “Ela vai nascer de 39 semanas, na segunda feira”.

Na semana que se seguiu tentei relaxar fazendo caminhada, senti de novo a natureza viva no vento, no azul do Céu na força do sol e sabia que estava tudo em paz. Que eu era parte da terra, que a natureza brandava aos cantos dentro de mim. Iniciei a despedida da minha barriga. Tirei umas fotos bacanas no Parque Lagoa do Nado, a barriga enorme, e eu orgulhosa de estar vivendo tudo aquilo.

Coloquei um pouco de pimenta na comida e na vida também!

Praticamente todos os dias a noite sentia uma coisa dura no baixo ventre mexendo e às vezes até dolorida, que nem me deixava dormir. Era minha filha encaixando, bem aos poucos.

No meio da semana senti fortes contrações, irregulares e cólicas bem doloridas, pensei que bom será que é hoje? Decidi esperar, peguei no sono e no outro dia as dores haviam passado.

Senti que cada vez mais estava perto. Meu chá de bênçãos estava marcado para o domingo dia 30 de janeiro, quando completaria 39 semanas.

Sinto uma profunda nostalgia ao escrever sobre isso, lembrando da minha barriga guardada na memória e no coração.

Todos os dias da minha gravidez, mesmo os que me senti com medo, insegura e estressada, que foram poucos, foram maravilhosos.

É um estado divino, e me orgulho muito humildemente de ter vivido isso. Sou muita Grata pela Natureza e Deus me darem esse presente.

Não tenho palavras para descrever esse sentimento, de estar grávida, de gerar, gestar e conceber um ser.

De dar à luz.

É como tentar explicar o amor, ou o sentindo da vida. É maior do que nós é mais intenso e sagrado que qualquer coisa que já tenha vivido.

No sábado, outra discussão com minha mãe, estourei, briguei. Chorei, desabafei, como se quisesse por algo para fora antes do que estava por vir.

Meu marido, com sua raiz japonesa me disse para não chorar e ser forte e eu disse a ele: “Só quero desabafar! Estou cansada disso tudo! Dessa casa, dessa família, quero minha filha!”

Então ele me disse, “Vamos sair daqui, dormir fora hoje?”

Fizemos uma malhinha e fomos passar uma noite fora, num hotel.

Pude relaxar, que era o que ele queria, entrei na banheira, fizemos amor e dormimos. No meio da noite acordei sentindo uma dor. Pensei ser a mesma coisa que tinha sentido antes.

Fui ao banheiro e senti duas gotas caindo no sanitário saindo de dentro da vagina, levantei e olhei duas gotas de sangue, limpei e confirmei o sangue. Pensei: “Deve ser o tampão”. As cólicas continuaram a noite toda, o acordei e avisei. De manhã vi uma gosma marrom meio transparente. Era o tampão. Tomamos o café, comi a vontade muito feliz que minha menininha tinha decidido nascer nesse ou nos próximos dias.

Voltamos para casa.

Fizemos o chá de bênçãos, foi tudo lindo, muito gostoso, tiramos muitas fotos o escalda pés estava ótimo, as bênçãos foram lindas…

Todos ficaram felizes e meus pais mais tranquilos. Entenderam que aquela minha falação sobre parto, sobre doula sobre humanização não era um ideia louca, saída de um comunidade alternativa, que eu tinha uma rede de apoio por traz daquilo tudo, e que elas estavam ali para ajudar, de coração.

A Carol fez massagem nos meus pés, e ela já tinha conversado com meu marido e ele que foi se envolvendo aos poucos na construção do meu parto, já estava totalmente entregue a esse evento. Ele foi um grande companheiro durante toda a gravidez. E me surpreendeu no final também, com seu carinho sua paciência e seu entusiasmo, não só no chá de bênçãos, mas com tudo o que estava acontecendo.

Conversando com nossa filha acariciando a barriga, sempre preocupado com minha alimentação…

Não vejo minha vida sem ele. Unimos-nos,  mesmo não sendo casados no papel. Na alma e no coração somos um só.

O chá passou, várias contrações indolores, mas fortes e no fim do dia mandei meus planos de parto para a Carol.

Escrevi um, só para a família, pois queria que eles entendessem meus motivos para não os querer envolvidos no meu parto e no trabalho de parto.

Eles me deixariam ansiosa e eu sabia que isso ia atrapalhar, na verdade foi uma premonição. Não deu tempo de mostrar os planos. As contrações começaram a doer e eu fui deitar.

Dia P 

Deitei depois de duas contrações doloridas e fortes.

Tinha resolvido esperar e queria ir para o Sofia com o tralho de parto bem adiantado.

Dormi durante uma hora e acordei com mais contrações, fui ao banheiro queria esperar mais. Saí para a varanda do quarto e fiquei lá no frescor do ar da meia noite. Não conseguia contar intervalos, sempre perdia a última contagem e tinha que começar tudo de novo.

Sabia que estava cedo, fiquei andando ali na varanda quando numa contração eu gemi. Meu marido acordou e veio me abraçar. Foi lindo. Esperamos um pouco mais e ligamos para Carol as contrações já estavam mais doloridas. Achei melhor a Carol vir, porque estava ansiosa. Carol chegou as dois das manha e ficamos um pouco aqui em casa.

Tinha lido bastante sobre maneiras de alivio de dor e vi um vídeo de um parto onde uma mulher vocalizava bastante, aaaaaaaaaas, ussssssssssss, ommmmmmmssssssss etc.

Comecei a fazer isso porque não queria gritar. Sentia-me maravilhosa, a dor não era nada demais, por vezes perguntei para Carol “Estou em Trabalho de parto mesmo? Não está doendo tanto assim”. Meu marido começou a andar comigo e me ajudar a respirar.

Minha família toda acordada, com cara de preocupação e minha mãe contando os intervalos.

Ela disse: “está de três e 3 minutos!”

E eu pasma pensando ”Gente isso não ta certo! Tem alguma coisa meio doida nisso tudo!Eu tô em trabalho de parto mesmo? Tem muito pouco tempo e a dor não está tão horrível assim!”

Decidimos ir para o Sofia e ver como estava a situação, mesmo porque em casa não dava para ficar. A família não estava nada relaxada, apesar das conversas com a Carol, das conversas comigo, de tudo que eu afirmava etc. Esqueci de deixar o plano de parto para eles lerem.

Meu marido ligou para a Sibylle, ela disse que ia para lá, que era para eu ir direto para a casa de parto.

Chegamos no Sofia por volta das dois e meia.

O enfermeiro de plantão me examinou, viu as contrações e disse “as contrações estão muito boas!” Tive que fazer o toque doeu um pouco. Ai ele disse “Bom o colo tá bem apagado e com um cm de dilatação”. E eu pensei “Já é um cm!”Estava empolgada, a Sibylle chegou, sai para a área externa do hospital e sentamos olhando a noite. Já eram umas quatro da manhã. Ficamos admirando a estrela vespertina e as contrações continuaram. Uma senhora me viu vocalizando, e chegou perguntando se eu estava sofrendo muito, dizendo todos os horrores que se diz do parto, que eu nem preciso colocar aqui. Quase mandamos ela para aquele lugar, mas ela teve “se mancou” e foi embora.

Fiquei então na salinha de consultas da casa de parto, porque eu estava chamando muita atenção e isso talvez não fosse legal para mim conforme o movimento aumentasse.

Lá acho que me aproximei um pouco da partolândia. Ficamos quietinhos eu sentada no balancinho, a cada contração vocalizando, o que meu marido chamou de “o canto da baleia”. Entre as contrações eu pedia “Deus, mais uma por favor, me dá mais uma” a dor era intensa, mas não insuportável. Meus braços e dedos se contraiam com força e eu sentia vontade às vezes de me contorcer. Como se fosse um prolongamento da forca realizada pelo meu útero. Eu estava gostando de sentir meu corpo trabalhar. Comecei a dormir entre as contrações.

Tava tudo tranquilo, acho que estava me desconectando de tudo. Mas não podia ficar mais ali naquele local. Já eram sete e meia da manhã quando a Sibylle entrou e disse que teríamos que sair, porque o consultório logo seria usado.

Ela fez um toque. Doeu muito. “Dois cm”. Pensei “não vou fazer mais nenhum toque.”

Conversamos os quatro, Carol, meu marido, eu e Sibylle e acabamos por concluir que eu tinha que dar uma voltinha, comer algo, pois não poderia me internar com dois cm.

Saí do limbo entre a partolândia e o mundo normal. Saí do Sofia e fomos à padaria para comer, logo veio uma contração e eu me sentindo inibida aguentei calada. Aquela contração foi horrível. Mais outra e falei para o Takeshi: “Quero sair daqui”. A Sibylle veio atrás de mim e íamos para a casa de Sofia aguardar um pouco, e na rua outra contração. Lembro do Takeshi dizendo “não precisa ter vergonha, você está grávida, parindo, pode fazer o que quiser”. E então vocalizei de novo, mas mesmo assim me senti insegura e com medo. Queria um canto para mim!( pensando agora eu deveria ter ido para a casa de Sofia, porque eu não fui? Porque eu quis tanto ir p o quarto da banheira? Será que eu queria tanto parir que queria sentir que estava em trabalho de parto real e por isso internar era um símbolo para mim?Quantas mulheres as vezes não vivem isso e não sabem porque se internam tão cedo?)

Enfim o quarto da banheira vagou e eu fui para lá, mesmo com dois cm, a Sibylle me internou correndo o risco de uma advertência ,pois teve sensibilidade de perceber que eu precisava de paz. Que ir para casa também não seria bom, que a família ia ficar estressada e as coisas poderiam parar.

Ficamos lá. Fui internada às nove horas da manhã.

As contrações vindo e eu sempre pedindo, mais uma, mais uma, vocalizando bastante.

Olhando sempre para o relógio, pensando já estou aqui a 5 horas a 6 horas a 7 horas, enfim contando as horas. O Takeshi e a Carol do meu lado,  revezando, uma hora um fazia massagem e o outro me apoiava.

Usei a bola, mas gostei mesmo foi do balancinho. Agachada na escada de Ling ou apoiada no Takeshi, vocalizando muito, apertando com força e gastando energia. Não queria saber de comer quando muito aceitava algum líquido. Não deu tempo de comer um pão, porque na primeira mordida veio uma contração.

E já estava doendo bastante, as lágrimas já estavam escorrendo. Eu estava me sentindo cansada, não fisicamente, mas cansada daquela situação. Das horas passarem voando, mas para mim o tempo praticamente parado, numa escala de evolução de dilatação que na minha mente estava paralisada. Como se eu estivesse contando o tempo em cm de dilatação e não em minutos.

A Sibylle sempre auscultando o bebe, entre e durante as contrações. A Carol fazendo massagem, Takeshi segurando minhas mãos. Duas da tarde chega minha irmã. Sabia que ela não estava sozinha, então deixei ela entrar para ver que estava tudo bem. Assim ela poderia acalmar minha família, eles se despreocupariam e eu não pensaria mais neles.

Ela viu e saiu , sabia que não ia ajudar, então não quis atrapalhar. Mas eu sabia agora que eles estavam lá. Sabia que não tinha parido em 12 horas como aconteceu com ela. E que o relógio estava andando. Os bebês dos quartos vizinhos nascendo, e eu com um relógio de areia na cabeça.

Três e meia. Comecei a ficar inquieta, e não tinha parido ainda, algo dentro de mim dizia: ainda falta muito. Tentava sentir alguma abertura, mas não conseguia. A dor aumentava e as contrações de três em 3 min., de dois em 2 min., de quatro e 5min. Irregulares. Eu não sabia mas estava em trabalho de parto latente. Aquilo ainda poderia se arrastar por horas. Eu já estava internada. Senti-me mais pressionada ainda.

No final das vocalizações às vezes saia um urro, um som gutural. “quero me entregar de novo, como fiz naquele consultório” “mas eu não aguento mais, não consegui até agora, não vou conseguir mais””por que isso está acontecendo?”

Lembrava do livro “Quando o corpo Consente” e de “expirar pela vagina” para ajudar a dilatar. Mas a sensação de cobrança de querer aquela abertura, de tentar forçar fisicamente meu colo a  se abrir me davam de rebote a sensação de um colo rígido e estático. Eu afastava esse pensamento da minha mente, mas sempre na próxima contração ele estava lá.

Eu começava a pedir “Abre,abre, abre, abre”, pedia ajuda de Deus, chorava, ao mesmo tempo de dor e emoção pois queria minha filha, custasse, o que custasse. E sentia que seria muito mais difícil do que tinha pensado. Que aquele corpo meu estava fora do meu controle. E que aquela vida ali dentro de mim também.

Eu estava bem consciente e sentindo muito sono também. Tentei andar, mas estava me sentindo cansada. Desanimada, desesperançosa. Fui para a banheira, tinha lido que a banheira relaxa, mas podia frear um pouco a dilatação. Como queria descansar topei, mesmo assim. Foi muito gostoso e as contrações continuavam a mesma coisa a mesma dor, mas conseguia relaxar mais nos intervalos.

Lembro de no meio de uma contração olhar para meu marido e dizer: “Me ajuda!” e ele lá me abanando devido ao calor que estava fazendo, com cara de “Mas eu não posso te ajudar mais. Agora é com você”.

Cinco e meia e eu exausta queria mais que tudo dormir e descansar . Pensava “eu preciso dormir um pouco, para dar conta. Tô cansada. Chega.” e realmente entre as contrações eu apagava. De repente tudo deu uma paralisada, as contrações diminuíram de frequência e intensidade. E eu dormia. A Sibylle veio com um aparato para ver se tinha mecônio. Tava tudo Ok. Bolsa íntegra ainda.

De repente eu disse “Tá muito longe, e a Sibylle:  “você mesma quer ver”?” E eu tentei ver se sentia alguma dilatação.

Quando me toquei senti apenas uma mucosa mole mas nada de “buraco”. Comecei a me preocupar “já tá demorando muito”. As horas passaram rápido, mas minha preocupação não era com as horas passadas, mas as que estavam para passar. Quantas mais?De olho no relógio.

Neo córtex funcionando que é uma beleza. Muito mal para um trabalho de parto. Eu havia ignorado completamente a verdadeira mulher selvagem fêmea dentro de mim. Havia encarnado um personagem, agindo e fazendo coisas com intuito de ter uma experiência de parto maravilhosa, de tentar ajudar o trabalho de parto a progredir, mas apesar de ter me informado e preparado para parir, eu ainda não havia me conectado com aquela fera ancestral, a fêmea instintiva dentro de mim. E por isso não sabia o quanto era importante deixar ela aflorar em cada célula do meu corpo.

Eu não sabia o que significava aquela entrega que eu tanto ouvia nos relatos, e hoje entendo que é um processo muito profundo que mesmo depois de parida ainda ecoa na minha vida e me faz digitar essas linhas.

Ao invés de usar uma sabedoria ancestral me fixei a coisas conscientes e racionais ao tempo de trabalho de parto… Pensei em cada detalhe da dor e de onde estava sentindo mais. Impus um prazo para parir e tentei me encaixar numa expectativa de tempo de trabalho de parto projetada para não desapontar e nem preocupar os outros.

A Sibylle me propôs fazer um toque, mesmo não querendo, topei pois “precisava” saber a quantas andava.

A Carol pegou uma toalha e disse “morde!” Eu mordi e logo no toque veio uma contração. Urrei e mordi com força, meus olhos arregalados e eu apertando a mão da Carol, ela me olhando com olhar de consolo.

E estava deitada o que era o pior. Mil vezes pior a dor da contração deitada, você quer se mexer se contorcer, mas está ali sem posição para concluir movimento algum. Não consegue se concentrar. Ë desesperador.

Então a Sibylle disse “o colo tá ótimo, bem fininho o bebe já está muito baixo, e com três cm de dilatação”.

Pensei “três cm? Depois desse tempo todo? Desse cansaço, dessa dor?” E então veio outra contração e eu ainda deitada me debati e comecei a gritar “tira ela de mim, tira! Tira !” e chorava… A dor me atingiu nessa hora. Uma dor muito mais do que física. A dor de desistir, de me achar muito incapaz. O medo. a angústia e uma sensação de impotência macularam meu trabalho de parto.

A Sibylle então me deu um sermão curto e grosso: “Olha, aqui agente não faz isso. Só em caso de vida ou morte. Mas por causa de Dor não.” Ela sabia que no fundo meu desejo era outro, e que me arrependeria demais se me negasse isso por causa da dor.

Eu me aquietei, voltei a mim. Senti-me envergonhada pelo chilique, mas afinal eu estava ali “querendo parir”. Continuei com contrações, mas agora eu chorava e comecei a me vitimizar, pensando que não ia conseguir, que não ia dar conta. Fiquei sozinha com o Takeshi deitada de lado tentando descansar. Então o Takeshi começou a me dizer que tinha orgulho de mim que me amava e que sabia que eu ia conseguir. Que agente ia sair de lá com nossa menininha, e varias coisas lindas que eu não consigo mais lembrar. Infelizmente.

Lembro-me de em algum momento ter mordido ele e até socado sem querer. E ele firme e forte ali me apoiando, abraçando, segurando…

Fui para área externa e comecei a chorar com outra contração, e ele me disse “canta para mim, não chora.”

Ai comecei a cantar para a Miyuki, cantando várias coisas bonitas, que eu queria ela aqui, chamei-a para crescer aqui fora, queria abraça-la, tocar nela, queria vê-la crescer linda e que quando fosse a vez dela eu estaria lá para abraça-la novamente. Também lembro poucas coisas desse momento.

Acho que então minha consciência começou a se apagar. Aos poucos uma sombra foi se aproximando e me levando para longe. Não tenho muitas lembranças visuais. Por isso acho linda a metáfora da sombra, porque é o pano escuro sobre os olhos, fechar os olhos para olhar para dentro.Lembro de sensações de algumas palavras e de ser tocada, massageada. Mas a sombra me levava para dentro de mim.

As contrações continuaram já não sabia que horas eram.

Ajoelhei-me na cama e comecei a gritar: Isso é tortura!

“É uma tortura”, na minha cabeça, aquela dor, não servia para nada, não estava adiantando e eu queria que parasse. Estava em desespero, cansada, com a confiança em frangalhos. Pensava que não conseguiria dilatar mais, fiquei com medo de não ser forte o suficiente. Eu até cheguei a desistir do parto e pensar que seria melhor uma cesárea para acabar com aquela angústia. “Tudo bem natureza, não sou pareô para você.”

A Sibylle me disse: “Você sabe que e posso acelerar isso.  Você quer isso?” E pensei: “ela ta falando do soro”. E eu disse não. Ele só vai aumentar minha dor e meu cansaço e já que é para parir, quero pelo menos ir aos poucos. Por três vezes neguei. Acho que o entardecer  havia passado e era noite.

Numa oportunidade fiquei sozinha com meu marido. Queria que alguém fizesse alguma coisa, queria saber o que ia acontecer. E então como se não conseguisse dizer isso, mas pensando em desistir, sabendo que ali jamais fariam uma cesárea sem indicação real, porque eu tinha me dado por vencida reuni forças e disse aquilo que nunca pensei que iria dizer: “Me tira daqui, me leva para um hospital particular para fazer cesárea.” E ele segurou a onda de me ver naquele estado, exausta, dando uma de moribunda, derrotada,  implorando, como se tivesse sido possuída, resistiu e disse. “Não, você planejou isso a gravidez inteira! Não é isso que você quer de verdade. Não vou deixar você fazer isso. Você vai conseguir, sei que vai.”

Calei-me. Comecei a questionar porque eu tinha escolhido aquele caminho. Ali eu não tinha como trapacear. Mas me sentia vencida.

A Sibylle entrou de novo. Dessa vez aceitei o soro,a contragosto, pela insistência. Estava com medo das contrações mais doloridas e frequentes e estava muito cansada.

A Carol entrou e estava eu sendo ligada ao soro.

Eu pedi desculpas, disse que estava cansada exausta fisicamente, mentalmente e emocionalmente.

Ela me disse “Pat você vai dilatar!”, e eu disse “não sei, não…”

Não queria o soro. Aquilo simbolizava além de tudo uma derrota, que eu mesmo me sentindo um fracasso, não queria aceitar. Não podia ser daquele jeito. Eu era forte, vigorosa, gestei aquela menina, com amor, carinho, saúde. Por que não iria parir? Pensava algo parecido com “Não quero agulha, não quero soro, quero fazê-la sair de mim. Mas eu não consigo, não tenho forças…”

Não tinha acabado ainda. Precisava descansar. Não de um trabalho de parto intenso e rápido.

A Carol me deu a ideia de tirar o soro, acatei na hora. Tiramos o soro e nem sei se chegou a entrar na minha circulação…

Pedi anestesia para Sibylle, disse que precisava descansar, dormir e que eu conseguiria se dormisse.

Ela me disse que nenhum anestesista no mundo me daria anestesia com três cm. Que não adiantava nada eu descansar das contrações e correr o risco da cascata de intervenções e levar minha filha ao sofrimento fetal. E eu sabia disso, mas como disse estava possuída pelo desespero e pelo medo. Muito medo do que poderia vir depois. Medo de “dar tudo errado”, da dor piorar, de durar muito mais tempo do que tinha imaginado e no fundo medo de parir. Medo da intensidade de tudo o que eu estava vivendo. Eu estava assustada na verdade.

O Takeshi me disse, “Patrícia, sei que você quer muito um parto natural, sei que será ótimo se for assim, mas não precisa ter vergonha de tomar o soro.”

“Você quer que essa dor passe? Quer acabar com ela?” e acho que ele não quis dizer o que eu pensei, mas me dei conta de que realmente não queria cesárea, que eu queria parir. E mais ainda senti medo de não fazer valer minha voz, dele me levar dali para um hospital particular e de ser destituída da minha experiência por mais confusa que ela estivesse. Fiquei paralisada ali olhando para ele e não dissemos mais nada sobre isso.

Ele foi levar Carol para buscar o carro. Ela precisava ir.

A Polly, outro anjo maravilhoso, chegou. Defensora ferrenha do direito da mulher ao parto seu discurso me intimidava. Quando a vi, me senti na sala do diretor de colégio depois de ter aprontado uma confusão. Pensei “Nossa agora acabou, não tem mais lero lero eu vou ter que parir”. Surpreendeu seu carinho, calma e doçura. Ela estava ali para me ajudar e não para me fazer parir. Colocou as músicas da Rosa Zaragoza e me lembrei de como me senti quando escutei a primeira vez, a mesma emoção e conforto. Segura e amparada.

Tudo ficou calmo, escureceu, eu não via mais o relógio, tudo sumiu. A sombra estava mais intensa a cada respiração.

Eu sem forças, ou melhor com todas as forças mas muito concentrada a ponto de não movimentar meu corpo que não fosse um ato instintivo do trabalho de parto nem que fosse para murmurar palavras,estava ajoelhada na cama, não queria olhar para nada, só ficar ali quieta.

As contrações vinham e eu respirava. Era só o que eu conseguia fazer. Respirar profundamente.

Enquanto meu útero contraia, saiam placas de sangue espesso de mim.

As contrações se irradiavam para as costas.

E entre as contrações eu dormia. A mente apagava, para acordar só na próxima.

A Polly me massageava, seu toque me inspirava confiança, serenidade. Conectei-me comigo e pensei. “Não tem outro jeito.” Me vi sem saída  teria que aguentar o tranco até sabe-se lá quando. Então aguentei, pensei em tudo,rezava durante as contrações, contava ate onde dava, ou pensava em tudo que estava vivendo, na minha filha, no meu marido, na Carol, na Sibylle em todo mundo que estava lutando pelo meu parto e no intervalo dormia. Então decidi lutar também. Mas como não sabia como ia fazer isso, decidi aceitar meu parto. Aceitar aquela força da natureza que se manifestava em mim, maior que eu, que os meus defeitos, as minhas limitações morais. Maior e mais importante do que a dor que eu sentia. Aceitar-me como veículo, portal da vida. Que todo aquele desespero era inútil e desnecessário. Que eu era responsável pelo nascimento daquela vida e que dali em diante nada mais seria sobre mim, sobre minha dor, meu cansaço, minha frustração. Que deveria me reerguer e agir como mãe, como mulher e não como uma menina medrosa e chorona

Escutei a Sibylle entrando e perguntando como estava e a Polly respondendo que estava bem, que eu estava lidando melhor com as contrações. Dormi. Lembro-me da Sibylle do meu lado me perguntando se eu queria tomar uma injeção de um droga que dava sonolência, para eu descansar, que não pararia as contrações, nem a dor e não passaria para o bebe. Eu não precisava daquilo, já estava entregue ao meu trabalho de parto, a dor não incomodava mais e eu estava resignada, sabendo que aguentaria as próximas contrações com mais calma e ir relutante. Não estava olhando para ela, mas senti sua preocupação e compreendi sua maneira de me dar alento. Acatei porque senti que se fizesse isso, ela ficaria mais tranquila e eu poderia ficar mais a vontade sem medo do soro. Hoje entendo que foi por isso. Tomei a injeção. Não sei quantas horas eram, mas como se fosse num sonho me lembro das contrações, de repetir que ia passar, do sangue e de a bolsa ter estourado naturalmente.

Senti a água descendo de uma vez e fazer plá na cama. Pensei: “Bom agora vai ou racha. Vai doer p c%*%$ Seja o que Deus quiser” a Polly perguntou: Estourou a bolsa? E eu sem querer acreditar mesmo sabendo que sim disse “Não sei…”

Não tenho memória do que aconteceu depois.

Apenas me lembro de sentir vontade de defecar. Levantei-me e pensei “não vou c** na cama”!

Fui para o Banheiro e a Polly atrás de mim. Sentei no vaso fiz força e as fezes saíram.

Veio uma contração, fiz força. Então senti algo duro e grande descer. Pensei. “Como? Será? Já?”

Mas estava completamente prostrada, curtindo o momento rsrs. A Polly me convidou a ir para o banquinho. Disse que estava descansando um pouco.Veio outra contração, senti a cabeça dela, “do nada” incrédula! Pensei “vou levantar logo, a menina vai nascer! E eu to na privada!”

Sentei no banquinho sabendo o que estava acontecendo, mas achando que não estava acontecendo. Enquanto isso a Polly com cara de felicidade me dizia, “eu preciso apreender com essa mulheres. Pat você é muito poderosa dilatou sete cm em pouquíssimas horas!”

Estava chocada, meu sonho, meu parto ia acontecer. De repente recobrei os sentidos. Vi meu marido com a câmera na mão. O olhar de espanto tão chocado como eu, ou até mais.

Um sonho que na verdade já estava acontecendo. Eu quis um parto assim. Eu quis a dor, a angústia, os momentos de desesperança e derrota. Eu havia pedido, na carta, um parto transformador, de força, garra, dor, medo e por fim a resignação e o clímax do nascimento, coroando todo um processo de aprendizado, de amadurecimento de transformação. Eu quis um ritual de passagem, como imaginei varias vezes ao tocar no meu ventre cheio de vida. Eu quis aquele pulsar da vida, aquele confronto e posteriormente a miscigenação com algo sublime. Eu quis aquelas sensações viscerais e nas palavras da carta com sangue força e amor. E eu tive isso. Hoje, dia das mães, dois anos depois de ser abençoada com o pulsar da vida dentro de mim, consegui rever todos os vídeos do meu e não lembrar da dor, e sim da sensação gostosa das contrações, de me colocar de joelhos e sentir um profundo respeito por aquele processo de milhões de anos, de todas as fêmeas mamíferas, de todas que pariram, com sangue urros e força.

Continuando…

A Sibylle gritando: “Traz o material!”

E eu sentada no banquinho. Contrações fortes, uma força que eu nem sabia que podia fazer e a cabeça descendo aos poucos. Eu não tinha domínio sobre o que estava acontecendo.

A  Polly e a Sibylle me chamando de poderosa e eu me sentindo indigna de ser dita assim, devido a todo o conflito de antes, incrédula de tudo o que estava acontecendo e do que ia acontecer. E com um medinho do desconhecido. Uma sensação de estar prestes a descer do alto da montanha russa em alta velocidade. Um medo gostoso, o mesmo de quando descobri que estava grávida.

Toquei a cabecinha dela, já no canal de parto e senti os cabelinhos. Sorri. Senti-me forte de novo. Cada contração eu fazia força e passava mão na cabecinha dela. Urrava. Ainda fiquei com medo de a cabeça subir e tentava não relaxar muito a musculatura do períneo nem contrair demais para que isso não acontecesse. Os exercícios de kegel ajudaram essa hora a me sentir mais confiante. Aquele foi um momento de extrema consciência corporal.

Gritei. Pensava”Que droga tenho que fazer mais força”tentava, mas não era nada comparada as forças das contrações. Desisti do puxo forçado. Uma pequena ansiedade,um desejo forte de tudo terminar e eu ter minha menina nos braços apareceu no meu rosto. Novamente Polly e Sybille me acalmaram.

Mais duas contrações o grito alto e cortante. Não era dor. A sensação era mais de formigamento com um ardência, mas o grito não foi de dor. No momento a sensação que corre nas veias e na pele e de uma emoção esplêndida. Senti aflorar da garganta para fora uma sensação indomável uma explosão de força e vida. Desde as ancestrais negras, das índias, das minhas ancestrais pré colombianas, das mulheres redondas das esculturas pagas e pré históricas, de todas as fêmeas ancestrais e pulsantes dentro de mim …E todas elas saíram naquele grito cortante…

Senti o circulo de fogo, gritei alto e agudamente novamente. A expressão máxima antes do nascimento completo.Sem nenhum pudor, completamente fêmea, o ápice da minha entrega, não tinha mais como negar minha natureza. Outra contração senti arder de novo, mais um grito.

Queria aqui exteriorizar algo que desde aquele dia fica comigo em silêncio e não consegui admitir até o dia de hoje.

Nesse momento, lembro de ter sentido um pouco de vergonha, remanescente do pudor hipócrita da nossa sociedade, esse pudor que castra as mulheres, que rotula os gemidos, os urros, as sensações de prazer e de volúpia, especialmente no parto. Virei para a Polly e disse “está ardendo” como justificando aqueles gritos, “olha eu gritei assim porque tá doendo viu? Não é porque estou simplesmente parindo e sentindo o parir”. Eu não queria admitir que na verdade aquela emoção era extremamente prazerosa, mais significativa do que ser uma mártir por passar pela dor, pelo círculo de fogo, por serem consideradas sensações de sofrimento, como amaldiçoadas fomos pelo criador no livro bíblico do Genesis, tive vergonha de admitir naquele momento que estava trêmula de prazer.

Mais uma contração e  um alívio seguindo uma sensação de gozo carnal.

Senti a cabeça e ombros saindo na mesma contração. Os osso do crânio se dobrando para passar. A cabeça girando os ombros desprendendo. O corpinho girando, as perninhas batendo dentro de mim. Se despedindo do seu lar durante 39 semanas. Um gargarejo seguido do choro. A emoção de escutar ele. O alívio misturado com a felicidade. Com um frenesi embriagante. Entorpecente.

Tomei-a em meus braços emocionada, em êxtase total, esplendidamente feliz. Chocada.

Sua pele encostando na minha. O choro vigoroso. A sensação mais intensa de prazer, amor e felicidade era tudo tão perfeito que agora entendo porque foi tão difícil acreditar que era verdade!

“Você conseguiu, nos conseguimos. Minha linda.” Exclamei!

Ela chorava a beijei, disse que amava.

A Sibylle a cobriu com uma manta e me disse: “mulher forte, poderosa me deu uma lição daquelas…”

Olhei para meu marido com a maior cara de felicidade. Nem parecia aquela menina derrotada, exausta, brigando consigo mesma, com medo…

Meu marido veio beijou-a disse que tinha orgulho de nós duas. Que me amava. Vi lágrimas nos olhos dele, o que era raro. Fiquei ali namorando minha filha, dizendo: “eu não acredito!”

Pouco depois senti a placenta descendo, não foram nem 15 minutos. Uma sensação deliciosa. No meio daquela emoção nem lembrava que ela estava dentro de mim.

Meu marido cortou o cordão eu com o sorriso de orelha a orelha…

Ele saiu para buscar meus pais. Elétrico de felicidade.

Ela nasceu às 23h22min. Eu pari. Apesar das infundadas inseguranças as quais me agarrei meu corpo funcionou. Perfeitamente.

Depois reparei na quantidade de sangue na cama, no chão do banheiro, espalhado pelo quarto todo. Nunca vi tanto sangue na vida. E apesar de para muitos parecer uma cena de terror senti um profundo respeito por todo aquele sangue e o cheiro de entranhas, animalesco como se fosse uma oferta a Mae Natureza e uma promessa de vida. Um verdadeiro atestado de força vital e virilidade feminina.

Estava feliz! Miyuki mamou e ficou me olhando com aqueles olhinhos lindos, brilhantes como estrelas negras, puxadinhos, perfeitos. Toda perfeita.

Apgar 9/10.

2.980g, 48 cm, bem diferentes do US.

E era minha, linda, mais linda que qualquer coisa nessa vida.

A Sibylle me examinou, só uma escoriação pequena, nenhum ponto.

Para completar minha benção.

A exaustão bateu de novo, na forma de fome e sede. Depois em sono. Que nós duas compartilhamos. Meu marido foi para casa descansar, pois mesmo extasiado de alegria ele também estava cansando. Muitas emoções para um dia.

Epílogo

Hoje, um ano e três meses depois, olhando minha lindinha dormir termino esse relato tentando refletir um pouco sobre tudo isso com os olhos de quem viu muito mais dentro de si do que naquele dia, quando Miyuki contava apenas nove dias

Naquela época escrevi.

“Cada mulher tem o parto que precisa”. O corpo pode parir isso é certeza. Mas a mente, a alma tem que se entregar ao corpo e deixar ele comandar. Quando estamos para dar a luz precisamos fazer um parto emocional para depois parir fisicamente.

“Aceitar o que o corpo faz, como ele é.”

E isso continua valendo.

Mas mais profundo que isso, na minha experiência consegui idetificar e elaborar muitos sentimentos, ocultos, mas transformadores a ponto de evocar o nascimento de uma nova mulher e provocar uma transfiguração em mim.

Posso voltar quantas vezes quiser àquele dia. Fecho os olhos e repasso as cenas:

Ela olhou dentro dos meus olhos com aquelas perolas negras brilhantes e vivas, agarrou o bico do seio como se sempre tivesse mamado e dormiu. Foi fantástico, e hoje esquecida da dor, do medo e das incertezas que me rondaram naquele dia, apenas me lembro com muita nitidez as sensações do período expulsivo e do nascimento, que foram muito emocionantes e prazerosas. A delicia de sentir ela escorregando para fora e tocar sua pele, sentir seu corpo aninhado no meu colo. De olhos fechados posso fazer ecoar em minha mente o som de seu choro que seguiu a um leve som de gargarejo quando o tórax passou pelo canal. A imagem do seu rostinho rosado. O seu cheiro deleitante. Se quiser posso fechar os olhos e sentir isso tudo. Memórias vividas que jamais poderão se esvair.Maravilhoso e transformador, foi sem dúvida o momento mais feliz, no qual me senti mais realizada e completa ate hoje.

E sou grata por ter vivido tudo isso.

No fim para mim foi perfeito do jeito que foi. Não mudaria nada, nem as dúvidas, as horas de fraqueza e de covardia.

E só para constar, o prazo para eu tomar soro e induzir o parto era até meia noite, devido a mudança do médico plantonista. Se eu ainda estivesse em trabalho de parto, o próximo talvez não esperasse mais. Ou seja, se nada acontecesse, eu teria que tomar o soro. Mas, surpreendentemente, exatamente meia hora antes do prazo eu pari.

Depois fiquei sabendo que minha mãe foi na casa de parto, e queria que me dessem o soro, fez escândalo disse q ia chamar policia, que ela por direito tinha que entrar, insistiu no soro. Talvez essa pressão possa ter contribuído para um pouco da ansiedade da assistência também, e indiretamente eu podia estar sentindo uma insegurança. Engraçado que logo antes do tp engrenar mesmo eu esqueci da minha mãe. Imagino se ela estivesse comigo o que teria sido. Um caos total. Mas eu previ isso e mesmo ela ficando magoada deixei bem claro que não queria ela comigo nesse momento. Então mesmo eu não sabendo que ela estava lá, como disse que não queria no plano de parto, todos trabalharam para deixa-la afastada e para que eu não soubesse.

Meu corpo foi sábio, começou a dilatar do zero, fortemente e depois como estava cansado apagava para poupar energia e para tentar manter minha mente em branco. Eu que me atrapalhei um pouco e mesmo assim não consegui sabotar meu parto, meu corpo foi perfeito como sempre soube que seria, Nem lembro da dor das contrações, mas agradeço a cada uma e bendigo também, pois elas foram a força que abriram passagem para minha filha.

Penso que se tivesse prosseguido com o Pré-natal pelo convênio, se tivesse escutado os conselhos de não ir para o Sofia, não tivesse conhecido o ativismo pelo parto ativo e humanizado, teria aceitado uma bela “desnecesárea.”

Com 38 semanas sem dilatação, ou então no trabalho de parto se tivesse chegado com três cm as seis da tarde já teriam me cortado. Mesmo minha Miyuki em perfeito estado.

Quando pedi a cesárea, teriam me cortado.

Miyuki mama maravilhosamente bem, muito com 1 ano e três meses. Não adoece facilmente, nunca teve diarréia. Sempre viva, contente. Seus olhos brilham tanto quanto naquele momento que olharam para mim. Esperta, brincalhona, anda saudável, a cada dia com uma novidade, seja num gesto, numa palavrinha…Cresceu tão rápido, a pouco mais de um ano atrás ela ainda estava no meu ventre, desenvolvendo os últimos detalhes para poder ter um nascimento saudável.

E continua crescendo. Mas seus olhos, profundos, continuarão os mesmos e eu desejo fortemente que um dia outros pequeninos olhinhos,  brilhantes e preciosos, possam encontrá-los, assim como os dela fizeram com os meus. E que ela sinta a mesma emoção que eu senti quando os dela me iluminaram pela primeira vez.

Agradecimentos:

A Carol, por ter me apoiado e aguentado todo a tranqueira e mesmo eu me acovardando, não deixou de lutar pelo meu parto e por tudo o que eu sonhei. Desde quando nos conhecemos, sempre foi companheira, e mesmo com os seios cheios de leite, longe da família não se afastou de mim, me confortou e me deu força. Consolou-me. Hoje uma grande amiga que quero sempre perto de mim.

à também grande amiga, sempre carinhosa como na aquele dia, Polly, por ter me ajudado a relaxar e me amparado no final quando precisava apenas deixar rolar, me ajudou a suportar a dor e a ficar calma. Não deixou minha filha nascer em cima do sanitário (risos) e me chamou de poderosa mesmo eu nem merecendo tanto assim. Por todas as palavras e questionamentos diretos, a mim e a todas as gestantes que tem sorte de poderem contar com ela. Muitas das palavras dela(escolhidas para não magoar, que acabam chocando quem não espera que alguém lhe mostre, sem máscaras a realidade)ainda me fazem questionar sobre parto e maternidade, no rumo sempre de ser uma mãe ativa, consciente e acima de tudo comprometida com minha filha e com a nossa verdade.

O trabalho dessas doulas foi imprescindível, não só as massagens, mas sua tranquilidade e mesmo a presença de suas energias positivas foram uma grande benção que tive a oportunidade e porque não, sorte de ter ao meu lado.

A Sibylle por ter me acolhido, quando precisei, todas as vezes, mesmo não sendo sua obrigação. Por todo seu carinho e dedicação, por cada segundo de sua preocupação, do seu trabalho e do seu carinho. Por ter confiado em mim e me dado uma chance de tirar o soro e deixar meu corpo trabalhar sozinho, por ter ficado comigo até o fim, por ter aparado minha filha ao nascer e me entregado nos braços para o maravilhoso contato pele a pele. Por humildemente me dizer que eu ensinei a ela uma valorosa lição. Também apreendi muito com você. Você marcou minha vida.

À Clara minha amiga por ter me dado a pílula vermelha para sair da Matrix.

À lista de discussão, a ONG Bem Nascer e toda a rede de mulheres e seus relatos, por todo o apoio informação, empoderamento e pelo maravilhoso chá de bênçãos.

À casa de parto do Sofia, com todo seu acolhimento, presente para as mulheres que desejam parir e viver o nascimento como a coisa sagrada que ele é. Escolhi o lugar certo para parir, não fui discriminada, nem julgada e vi que todas as mães e gestantes são tratadas por igual lá. Fui extremamente bem tratada, não faltou nada para mim e para minha filha.

Ao Ishtar Bh, por me deixar fazer parte de sua história, nesse trabalho conjunto de paciência perseverança e amor junto as gestantes, para que elas sejam protagonistas, no empoderamento real da mulher e na rede de apoio que essas mulheres representam, mais do que colegas verdadeiras companheiras de maternagem.

Ao meu marido.por tudo que ele é e representa.

Pelo seu companheirismo e amor. Por não me deixar sozinha, nem desistir de mim. Por de todas as pessoas ser a mais importante ali e por ter ficado comigo todo o tempo, mesmo as vezes sem poder fazer nada também. Suas palavras, presença e amor foram um balsamo para mim. Pelo seu amor incondicional durante toda a gravidez, pela nossa filha linda. Por se emocionar junto comigo. Por viver comigo. Por ter tomado as atitudes certas nos momentos oportunos. Por ser o grande amor da minha vida e junto da Miyuki a razão da minha felicidade.

Hoje seu respeito e admiração significam muito, e tenho plena consciência de que a sua participação no parto foi imprescindível para que esse posicionamento dele tenha se concretizado. Ele confia em mim como mãe e nos meus instintos e sabe que estou apta e alerta a todos os sinais da minha filha e que sempre vou atrás para garantir o melhor para ela.

E finalmente a minha linda de olhos contra a luz. Esse imenso desmedido amor, essa luz, o recheio da minha vida, só as lágrimas de alegria são suficientes para fazer valer meu enorme agradecimento a sua vinda para esse mundo através de mim.

Cada dia com ela ser um aprendizado mútuo, cada vez mais tenho a  certeza que o caminho que escolhi desde aqueles dias iniciais da gestação de exercer uma maternagem saudável, ativa e consciente me levarão a mais questionamentos. Ser mãe e se superar a cada etapa, e viver momentos deliciosos, alegres e maravilhosos, mas também é frustrar e aprender a ser uma pessoa melhor, a ser muito paciente, a ser muito mais sensível e tentar enxergar  dentro do coração imaturo do outro o que ele sente, ajudando a entender e lidar com esse sentimentos. Desafios diários, de confiança, um estreitamento de laço, uma conexão e ainda uma confiança instintiva que vem com a experiência do parto e da amamentação. Uma ótica pela qual
tenho enxergando nossa vida, nosso desenvolvimento e que pretendo que siga ainda pela vida que nós é reservada.


Domingo levei minha pequena para a festinha de aniversário de 1 aninho do amiguinho dela, o Rafa.
Quem disse que festa de criança precisa ter guloseima para ser legal?
Foi uma festa deliciosa, as comidinhas feitas especialmente para que bebes pudessem comer, saudáveis e saborosas.
O bolo estava simplesmente delicioso, e não levou ovos nem leite no preparo, nada de leite condensado na cobertura, frutas como a carambola faziam parte do recheio.
E a fofura do centro de mesa?
Uvas, morangos, carambola espetadas num palito, fixadas numa base feita de garrafa plástica.
O espaço kids para eles brincarem só tinham brinquedos feitos com material reciclável, e depois da festa todos podiam leva-los para casa como lembrancinha da festa.
Refrigerantes? Naoooo
Sucos naturais preparados na hora, e nada de usar vários copos plásticos durante a festa, na mesa de sucos por exemplo, tinham copos e uma canetinha para os convidados identifica-los para não haver desperdício.
Salada de frutas sem leite condensado, servidas em fundo de garrafa pets.
Na mesa de pães tinha berinjela, pasta de grão de bico e maionese vegetariana, tudo muuiiito gostoso.
No primeiro aninho da Rayssa eu fiz uma festinha com algumas opcoes de comidinha saudaveis para os bebes, e agora a mamae Laura, me inspirou para as futuras festinhas aqui em casa.

Desmame Rayssa


Quero comecar este post pedindo desculpas pela falta de acentuacao no texto, ‘e que meu teclado ‘e configurado com alfabeto ingles e estou ha 400 km de Bh, numa cidadezinha onde a internet ‘e pessima.
Hoje comeca a semana mundial da amamentacao e resolvi escrever sobre este periodo meu e da Rayssa que esta coincidentemente se encerrando agora.
Engravidei quando ela tinha completado exatamente 1 aninho, e ate 16 meses a amamentei em livre demanda, ate que meu corpo parou de produzir este precioso liquido.
Rayssa teve dois desmames o fisico (leite) e o emocional.
Na epoca foi um alivio, pois os mamilos já estavao supersensiveis ao serem sugados.E nesse periodo ela comecou a comer muito, aceitava tudo, comia desesperadamente, eu fiquei muito feliz pois esperava ansiosamente que este dia chegasse.Me sentia pessima quando comia porcarias e depois amamentava.Era ‘e um rito de liberdade pra mim e nisso me concentrei.
Nunca programei um desmame, pelo contrario sempre idealizei amamentar tandem(2 criancas ao mesmo tempo).E assim fomos seguindo mesmo sem leite, ela sugava para adormecer, 2 sonecas de dia e algumas vezes acordava a noite.Com quase 1 ano e 5 meses, decidi que estava na hora dela dormir sozinha em sua propria cama e no seu quarto, já que eu não conseguia dormir direito com a barriga crescendo e sobrando cada vez menos espaco para nos tres na cama.
Para a minha surpresa, foi muito tranquila a adaptacao, e acordar algumas vezes durante a noite, levantar e ir no outro quarto atende-la fazia todo o sentido pra mim, comecei a dormir melhor.
Com 17 meses completos eu so faltava chorar quando ela sugava, eu queria fugir dali, queria ir para um lugar onde ninguem me achasse, sentia que ela esta não so sugando meu seio, mas que ela estava solicitando de mim algo mais, algo que eu não tinha para dar, senti raiva dela, como se ela fosse a vila, sentia raiva de mim por pensar assim.Aceitei que aquela situacao não estava legal para mim, apesar de ser tao comodo dela adormecer rapidamente ficando alguns poucos minutos conectada com o seio.
Eu não estava em paz, meu corpo pedia pra parar com aquilo, tornou-se uma tortura aquele momento, quando eu pensava em coloca-la pra dormir já ficava triste pela sensacao fisica que iria sentir, era como se alguem tivesse colocando o dedo numa ferida.
Ela completou 18 meses, e eu já não estava feliz com aquela situacao, sentia que precisava parar, senao iria enlouquecer.Fiz um paralelo com meu futuro parto e queria resistir, queria passar por cima daquele incomodo em nome do bem estar mental da minha Rayssa.
Queria e sentia que deveria me sacrificar, me entregar , me anular.
Postei um desabafo numa lista de maes na internet e ouvi um pouco de cada lado, refleti, passei a me cobrar menos e me permitir ser humana, que cansa, que chora e que se desespera.
Sempre imaginei um desmame natural, prazeroso.Mas não era aquilo que estava acontecendo, eu não queria mais aquila situacao e ate pensei que futuramente não iria amamentar a Rannah por tanto tempo quanto amamentei Rayssa. Daí vi que aquilo estava me prejudicando.Como assim amamentar por tanto tempo¿ Rayssa tem apenas 1 ano e 6 meses… ‘e um bebe!
Há 8 dias resolvi não deixar ela sugar mais pra adormecer, no primeiro dia ela chorou, eu explicava com um no na garganta:
Acabou o mamar, acabou o leite, vamos dormir, a mamae vai fazer carinho, vai contar historinhas e cantar musiquinha.Isso com uma voz bem mansa, suave.
Ela repetia:
Acabouuuuu
Leite acabouuuu
E eu afirmava:
Acabou filha, o mamar ta dodoi.
Ta doendo, ai ai ai…
E ela parecia entender, e comecava a cantarolar as musiquinhas comigo, ate adormecer.
As vezes quando vou coloca-la pra dormir ela alisa a minha blusa e fala: Isso!
Eu falo: acabou o peito, mamar acabou…
Bom, pra finalizar não sei o impacto que isso tera na vida dela, não sei se estou sendo egoista, Mas tenho a paz de quem fez tudo com muito amor, e foi ate onde deu conta, choro ao me lembrar dos momentos prazerosos amamentando-a, choro de saudade dessa epoca que eramos uma so, onde ela se alimentava exclusivamente de mim.
Rayssa sempre foi uma parceira, uma amiga, mesmo tao pequena foi sempre tao compreensivel. Eu fui agraciada por ter o bebe que eu tenho.
Em breve a Rannah nasce e não sei como sera, não quero imaginar nem fazer planos, já li muitos relatos que o mais velho pede pra voltar a mamar, e se isso acontecer irei amamentar a Rayssa novamente, com todo o amor do mundo, dedicacao e prazer.Nao so porque acho bonito amamentar 2 ao mesmo tempo, mas sei que estarei fazendo um bem enorme para o emocional dela, no momento que a irmazinha chegar em nossas vidas.
P s: Sei que ‘e cliche, mas vou enfatizar:
Voce que amamenta, aproveite cada momento desse ato sagrado, olhe e namore o seu filho enquanto ele mama, se dedique como quem faz isso pela ultima vez.
Em breve terei a oportunidade de passar por tudo isso novamente, mas sera com outro filho,sera outra experiencia.
O tempo com a Rayssa provavelmente encerrou, so restara a saudade e lembranca desse momento intenso em nossas vidas.

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